sábado, 18 de janeiro de 2014

Nova Vida

Eugênio, arrastando os olhos pelo chão, lastreando seu passado como correntes atadas aos tornozelos,  dobrou a esquina em direção à sua casa com a certeza de que o pior havia passado com o término das homenagens fúnebres e que sua vida se multiplicava amaldiçoadamente nova à sua frente, quando avistou o muro amarelo envelhecido que principiava a descascar, tão familiar e tão estranho para sua mente alquebrada. Estancou aprumado sob o sol escaldante sem precisão motora, absorvido numa névoa de solidão que amortizava o suor que escorria por todo o corpo. O calor inclemente transmitia uma indiferença do mundo ao sofrimento que o corroía serenamente.
O passo que o carregou de sua inércia não foi percebido nem desejado, mas seguiu-se de outro e de mais outro, tão insolentes e impudicos quanto o primeiro, e continuaram a suceder-se numa profusão claudicante sustentada pelo indissociável automatismo arraigado por tantos anos percorrendo aquela parca distância.
Quarenta e sete. Quarenta e sete sãos os passos comuns de Eugênio da esquina ao portão, mas dessa vez não conseguiu percorrer o caminho com menos de oitenta, devido ao encurtamento de sua vontade, à ambição de não chegar que o afrontava pungentemente em seu peito. Seus pés aparentavam andar um metro à frente de sua cabeça, que negava a necessidade de voltar àquele que era, há dois dias, o mais prazeroso dos lugares.
Parou diante do portão branco encardido, deslizando as pontas dos dedos da mão pelo muro enquanto se aproximava, procurando sentir que tudo não havia acabado, que a vida ainda insistia do outro lado. Os acontecimentos eram desfocados, e as trivialidades da rotina, que o esperava e que cumpriria ordinariamente com odiosa submissão, um peso muito superior ao que era capaz de suster, mas que manteria por incapacidade de abandoná-lo, pois intestino, e por penitência, convencido de sua culpa pela Ausência imposta pelo imparcial destino.
Passou a chave antiga ouvindo o tilintar do molho e o estalo do trinco, adentrou o território tão conhecido e o reconhecimento trouxe mais solidão, que rasgava seu corpo com a prontidão e permanência do incurável. Não conseguia reconhecer aquilo como dor, era inalcançável dentro de si. Havia perdido tudo, seu único bem, aquilo que dava sentido aos tijolos empilhados e cimentados que formavam sua casa, escondidos por reboco e tinta, mas que estavam lá, mantendo seu lar material de pé.
A solidez das paredes e a funcionalidade dos sistemas orgânicos da construção, a luz acesa a um toque e apagada a outro, repetidas vezes sob o olhar límpido do dono; a água que escorre como magia das torneiras e que desaparece com igual espanto por um buraco arquitetonicamente programado. Tudo isso não fazia sentido nos pensamentos inconclusos da cabeça mutilada pela perda. A um leve toque na mesa de jantar eternamente desfalcada emerge a imagem trêmula de um sorriso que não mais lhe seria oferecido, com os seios da face - suas belas maçãs - lindamente apertados pelos cantos da boca que os comprimiam com o vigor da alegria.
A sensação da esquina invadiu autoritariamente a sala como um intruso familiar, condensando o ar que parecia se transmutar em sólido tornando impossível o esforço de respirar. O vazio e o desamparo, enfim, preencheram as veias de Eugênio, quando observava da porta da cozinha as louças abandonadas sobre a pia e o fogão, amalgamando o real com a imagem embaciada das costas que tantas vezes admirou e que jamais tornariam a estar ali, que seria incapaz de uma vez mais pesar sobre aqueles ombros macios e em movimento pelo esfregar da esponja suas mãos ásperas, mas sempre carinhosas. A pia estava vazia de vida, como seu coração, mas podia sentir a suavidade da pele morena que deixou plantada na terra há menos de uma hora. Saiu da cozinha sem ter entrado, indiferente à sede que o levara até ela.
Voltou a ver sua sala e, daquele ângulo inverso ao de entrada, avistou o sofá, que não combinava com nada, arraigado num ponto do qual se avizinhava a porta da frente, invariavelmente aberta para que se pudesse ampliar o ambiente e o frescor. Sentiu o cheiro tão comum dos cabelos negros que sempre se deitavam ao seu lado enquanto lia uma bobagem importante qualquer, e sua visão se afogou em lágrimas arrependidas pela demasiada atenção dada às letras e menos àquela que sempre o aqueceu com calores e amores silenciosos.
Eugênio sorria de tristeza sob as gotas quentes que o queimavam face abaixo com uma felicidade amarga pelo já vivido, e que esperava um singular retorno da mulher. Viu a vida fluir de seu corpo – a dele e a da esposa – no asfalto fervente, sob olhares estranhos que juravam compaixão, mas que jamais poderiam compreender exatamente de quem dos dois deveria se apiedar.
Sentia o calor dela em seus braços, deitada sobre eles como tantas vezes se deitou no leito que os dois constituíram para viverem eternamente; sentia seu olhar dominado pelo dela, inflamado pelo medo, mas inesperadamente seguro por quem a amparava. Puxou Eugênio pela gola para perto de si, beijou-o resvalando seu lábio salgado e seco, e soprou tepidamente em seu ouvido o último Eu Te Amo, que pareceu aquecer e alastrar-se pela alma bipartida de Eugênio. Afastou-se lentamente como quem desiste e apagou-se como uma vela no instante em que a chama finalmente toca a cera derretida na base do pavio.
Sem se notar, acabou por tomar um banho, o primeiro nesse desconhecido mundo só, bebendo água do chuveiro para aquela sede que se viu oprimido, antes, a não saciar. Secou-se mal com a toalha do canto esquerdo, que era a sua, observando a outra que pendia viva sobre sua cabeça.
Tudo o avassalava, tudo o fazia pensar na ausência e maltratava seu corpo e seu espírito. Sentou-se do seu lado da grande cama recostado na cabeceira, abraçou nu os fartos travesseiros que sobravam sobre os lençóis sem disputa, lembrando-se dos dias que havia prometido viver e que não mais poderia cumprir. Murmurou Helena e desabou sobre si, pesado, duro, eterno, umedecendo a intimidade perdida com seus olhos e seu corpo.
Dormiu padecendo infelicidade.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Bolas e Livros

Lancinante, aguda, fina, perene, contida, própria, pública, ululante, consternante e tragicômica.

Nos idos de meu primeiro grau, início dos anos noventa, eu era um garoto que se enxergava Homem e conhecedor das verdades absolutas, desdenhando da complexidade da vida e resolvendo as questões filosóficas da humanidade com breves, rasos e levianos argumentos, ostentando orgulhosamente toda a certeza que a ignorância inconsciente traz consigo bem junto ao corpo, ou seja, eu era absolutamente normal.

Meu único ponto de destaque dos outros meninos, todos cheios de si por padrão, era estar numa posição privilegiada na turma: eu era o goleiro do time. Privilegiada porque você é o primeiro ou um dos primeiros a ser escolhido; porque os amigos o respeitam pela singularidade e dependência da posição; porque muitas das meninas adolescentes se interessam pelo que está fora da ordem, pelo diferente, pelo extravagante, pelo não usual. Era minha alta patente.

Foi numa aula de educação física excepcional na quadra coberta, pois parecia chover torrencialmente no mundo inteiro, que jogávamos futebol de salão e eu me destacava debaixo de minha baliza, quando Sérgio, um repetente contumaz, dois anos mais velho que a maioria — quando nessa idade faz toda a diferença — veio quase escondido pelo canto esquerdo. Sem jeito, pois não entendia nada de bola, mas robusto, o que me fez ser despretensioso e mesmo desdenhoso com o lance e já imaginando os olhos das meninas na arquibancada atrás de mim, Sérgio bateu de canhota com aquele eterno desequilíbrio de quem não é moldado para os esportes — uma bola que pesava cerca de meio quilo e era pequena, compacta, nem quicava se largada da altura do ombro — e me arruinou.

Tudo ficou escuro, um breu. É um segundo no qual nenhum de seus sentidos funcionam, você não enxerga, não ouve, não sente cheiro nem gosto, não fala. De verdade, você nem sente que não está sentido. Uma escuridão total nos isola do mundo. É o plácido momento em que se pensa que morreu. O que infelizmente não é verdade, pois surge o instante seguinte.

De um estado similar ao coma, ao nada, sente-se a existência de cada sinapse nervosa e a condução elétrica de cada impulso, transmitindo sua descarga reiteradamente para seu processador central de forma aguda e cruel; agora, você é um hipersensitivo, ouve o silêncio daqueles que estão por perto e absorve a consternação daquelas que nem sabem o que esse momento significa de fato, percebe a aproximação de vultos, a formação da roda de cabeças sem corpos sobre o seu corpo caído e turvadas pelas lágrimas, que, em nome da honra, jamais poderão rolar. Olha-se a todos e não reconhece ninguém. Fecha-se os olhos.

É fina, embora intensa, rasga a pessoa como um parto para dentro, que estica-se toda no chão numa tentativa cômica de estirar a dor, de anestesiar pela contorção. Estoicismo e cinismo puros são impossíveis nessas horas, pois ninguém passa indiferente por esse alheio sofrimento, nem está tão desvinculado do esquema social que não se sinta aflito, abatido e condoído pelo cidadão que nem geme.

Os momentos se sucedem, alguém pega suas pernas e as comprime contra o corpo, empurrando-as pelas canelas. A extensão não resolve, a compressão piora. A crueldade da relação adolescente faz-se perceber quando os amigos compreendem que ninguém ali vai morrer, e os sorrisos surgem nos cantos dos lábios, tomam as bocas inteiras, que vão se abrindo para emitir risadas que aumentam gradativamente o tom até atingir o nível das gargalhadas. E você lá, impotente, indefeso, cachorro morto para o pontapé do escárnio público, que o chuta afinal.

Cigana, a dor excede o impacto, desloca-se para cima, atinge aquele ponto sobre o qual sua barriga irá cair quando tiver os inatingíveis quarenta anos e for um velho. Pensa que vai vomitar, e continua segurando as lágrimas dentro dos olhos, obedecendo o código moral dos jovens cavaleiros. De forma surpreendente, a essa altura, você sente que ainda respira, e o mundo distorcido vai ganhando forma. Vê, inclusive, que o cara que pressiona suas canelas é o sorridente professor, que as risadas estridentes são das meninas atrás, ou na frente, ou ao lado; não se sabe mais em que orientação está. O sentimento é de que aquilo tudo vai durar para sempre, ou o sempre irá estagnar-se naquele momento, e o Tempo não continuará a fluir em sua perene efemeridade. Quanto se passou?, dez segundos?, meia hora?

A cada momento parece que recebe uma nova bolada, que, inclusive, ficou encaixada entre suas pernas e caiu junto com sua consciência, estatelada no chão, entre a trave e a linha de fundo. Seus descendentes devidamente guardados na bolsa, estão ruborizados, mas não mais que você, o patriarca. À medida que o mundo vai retomando suas cores, a vergonha vai dividindo espaço com as cólicas menstruais que o acometem raivosamente, as facadas seriais na linha da cintura que teimam em subir procurando o pescoço.

Em algum momento a gente fica de pé, ou nos levantam, caminha encurvado com passos enfermos, como se estivesse todo cagado, até o banco de reservas, senta um pouco de lado e consegue sorrir débil para o comentário que não entendeu de seu melhor amigo, tentando demonstrar que não foi tão grave e que não é para tanto alarde e gozação aquele evento funesto, lúgubre, nefando. Um sorriso preso, contido, nada mais. Um esgar.

Respira, respira, respira. O professor encerra a aula ali mesmo ressaltando sua desmoralização. Você pega a mochila cabisbaixo, coloca nas costas e vai para o ponto de ônibus, lentamente.

Uma bolada no saco por um colega incapaz nos torna mais prudentes e mais cientes da fragilidade e do acaso, irmãos que se encontram de quando em vez para zombar da portentosa humanidade.


No recreio seco do dia seguinte, todos correm até a quadra para garantir o primeiro jogo, eu não. Nunca corri porque tinha a certeza de ser escolhido. Não corri de novo. Chegava perto da quadra quando gritaram meu nome. Acenei com o objeto em minha mão evidenciando que era dele a prioridade e estampando com surpresa os rostos diários. Peguei meu livro novo, sentei num banco de concreto longe das quadras e abri na primeira página.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Meu Nome não é Jano

Não vou retratar aqui minhas más condutas, meus entorpecentes ou meus erros, nenhum segredo recôndito ou satisfazer qualquer curiosidade sórdida do desconhecido. O título é alusão a exatamente aquilo que parece ser, no entanto uma referência meramente tangencial, fonética poderia dizer, com mais afinidade com o relato que inicio que com a obra da qual extraí.
A questão principal é exatamente a titulada: meu nome não é Jano. Jano é um apelido carinhoso da redução de meu nome oficial, o qual é muito comum, está na boca de todos e de qualquer um, mas não para se chamar uma pessoa.
Minha mãe, quando grávida de mim, já me amava tanto que nunca se importou por qual seria o nome da criança. Não fazia diferença. Ela somente desejava com verdadeira paixão, mais que tudo na vida, que aquilo saísse de dentro dela, que a deixasse retornar à cintura cinquenta e poucos o mais breve possível; que não precisasse ir ao banheiro a toda hora para mijar apenas, pois a eterna prisão de ventre já havia arrebentado todas as hemorroidas possíveis de existir em um só buraco; nem se sentir como se tivesse gazes ou devorado uma vaca sozinha; que acabasse a sensação de ter comido um bicho vivo que não teve a decência de morrer após ser engolido e que tentava se libertar a todo momento esticando os membros aleatoriamente em seu ventre, pressionando ainda mais suas entranhas.
Para ganhar definitivamente a simpatia da nobre senhora de vinte e poucos anos que seria minha mãe para sempre, tive a esclarecida ideia de invadi-la, sem sua anuência, em abril ou maio, o que a matemática simples revela que o auge de seu sofrimento coincidiu com o verão tropical úmido. Nessa época do ano há dias com sensação térmica de cinquenta graus e umidade acima de oitenta e cinco por cento. Isso significa roupas banhadas de suor e coladas na pele para as pessoas comuns, que não carregam outro ser humano compulsoriamente há sete meses ou mais. Ela me adorava!
Eram os anos setenta. Ar condicionado era um artigo de luxo e luxo era um artigo desconhecido em casa de mamãe, antes mesmo de Jano, a (altíssima) despesa extra, dar suas caras através de sua vagina. E essa foi a cereja do bolo. Vim um pouco antes do programado pelo médico e pela astróloga – não sei ainda em quem mamãe confiava mais, mas acho que as estrelas estavam um pouquinho à frente da medicina –, e rasguei a bela menina como nenhum amante, por mais talento que apresentasse, poderia ter feito, antes ou depois de mim.
Minha mãe não me odiava, ela era indiferente, sem expressão afetiva. Cumpriu formalmente todo seu papel, com poucas reclamações. Hoje acho que teria lidado melhor com a rejeição explícita que com a sub-reptícia indiferença. Contra-agir é muito mais fácil e claro em face de outra ação, mas não vejo muito que fazer diante do nada, do não-feito. A ofensa pode ser aniquilada por diversas respostas, verbais, físicas, jurídicas, morais, imorais etc. Você pode não ser bem sucedido na resposta, mas ela foi dada. Como reclamar da conduta dos pais quando a comida está sempre em cima da mesa, você está na escola e não é cobrado, não é surrado por qualquer coisa, pode, enfim, ir e vir com mínimos questionamentos? Não tenho resposta. Sei que nada sei sobre isso além do que aglutinei involuntariamente em mim todos esses anos. Sei de mim, apenas.
Todos a consideram uma boa mãe, e eu não posso não concordar. Estou vivo, inteiro, íntegro segundo os parâmetros sociais que fui obrigado a seguir e acatar, não feio, embora ela fosse linda, tenho até nível superior que me permitiu conquistar um emprego público de grau mediano que me sustenta com um pouco mais de luxo, algo acima do básico, que ela poderia ter na mesma época de vida que enfrento hoje.
Afinal, a gravidez mesmo é que foi sofrida, um martírio. Embora esse desagrado fosse acontecer novamente em sua vida. Ouvi algumas vezes sobre as dores que ela sentiu para me “cuspir” e o alívio que meu choro causou. Mais alívio que felicidade, embora me vanglorie da certeza de que havia felicidade em algum grau, mitigada um pouco mais pela ignóbil mão do arquiteto genital que remendava sua vagina com agulha e linha. Desconheço exatamente qual a medida de simultaneidade desses acontecimentos, mas todos eles tinham um motivo comum, um gatilho: eu.
Meu pai era mais simples. Tinha o afastamento masculino de quem foi criado nos anos 50 e 60, sendo divertido em diversas ocasiões. Por isso mesmo, muito mais perigoso. Enquanto mamãe era a Justiça, analisava os erros e decidia as penas, papai era o Carcereiro, ou o Carrasco, dependendo da qualidade da pena: privação de liberdade ou corporal, junto com o discurso de ilibação da moral do condenado: eu de novo.
À época de meu nascimento, havia uma música que o cantor, e quem cantava, dizia que também iria reclamar disso e daquilo, que todo mundo agora reclamava, mas que ele, o cantor-autor se proclamava como o primeiro reclamante e, fatalmente para mim, dizia que já havia passado janeiro, mas se todos gostavam dele, o cantor, ele iria voltar. Meu pai logo sacou que janeiro era a referência a ter sido o primeiro em alguma coisa e achou o máximo. Falou com minha mãe que aceitou tão sem protestos quanto sem euforia, quase dando de ombros, abanando-se de calor, segurando uma barriga que não parecia ser sua. Ninguém reclamou.
Com o documento de nascido vivo, fui registrado no cartório mais próximo como Janeiro Alvarez Pires de Paiva. Isso aí. Era eu o primogênito desse casal casual, de todo desinteressado de tudo. O primeiro. Eu era Janeiro. Nascido em Janeiro. O infeliz e apático funcionário do cartório – não consigo vislumbrar instituição mais isolada das pessoas que um cartório, talvez um hospital seja – sequer deve ter se coçado para protestar contra um nome tão deslocado da normalidade, do comum. Simplesmente datilografou meu registro sem perceber que traçava as primeiras linhas do futuro de uma pessoa. Mal traçadas linhas, ressalto. Também não era culpa dele, não tinha nada a ver com as excentricidades alheias e, portanto, menos ainda motivos para se envolver. À quem não sabe, o oficial do cartório pode recusar registro e abrir procedimento ao juiz caso entenda que o nome a ser registrado possa causar constrangimento grave à pessoa. Não era o meu caso. Na visão desinteressada dele, ao menos.
Eu também iria reclamar. Repetidas vezes. Uma reclamação vazia, quase sempre muda, e invariavelmente inócua. Chamar-se Janeiro era motivo de risadinhas, mas estas só vinham depois que entendiam meu nome. Eram dois constrangimentos certos: fazer-me entender e suportar o depois de ser entendido, que poderia ser, nas pessoas educadas, um silêncio suave somado a um quase inaudível “ah, tá”. Ninguém acredita de primeira que você se chama Janeiro. Nunca tive desprendimento suficiente para deixar prá lá, simplesmente não me importar e sorrir diante da indiscrição do próximo.
Felizmente, não demorou a reduzirem um nome de três sílabas para duas, à guisa de carinho, e nascia assim Jano. O que resolveu pouco, pois a cultura de meu pai achou por bem me informar que Jano era um deus romano a quem se atribuíam os inícios, associado a portas, entradas e saídas, decisões e escolhas e que, por isso, foi referência para nomear o mês que me nomeia. Eu era Janeiro duas vezes.
(Portas! Não poderia ser o deus da guerra, dos mares, do céu, da terra, do fogo ou do ar?!)
Ainda tentei, porcamente, convencer e vencer meus colegas e amigos, principalmente os novos e os falsos, do orgulho que tinha por se chamado como um deus, mas esse deus era tão desconhecido e fraco na hierarquia olímpica que nunca obtive sucesso. Nem eu concordava. Logo desisti.
Aceitaria de bom grado, já que estamos tão próximos dos deuses, ser chamado de Hermes, nome grego de Mercúrio, o primeiro planeta do Sistema Solar. Primeiro, eu disse. Idênticos motivos. Pode ser que penso assim porque não me chamo Hermes, pois é muito provável que se assim fosse pediria para ser João ou José ou Rodrigo, como se chama meu irmão. Sim, tenho um irmão e logo estará em pauta. Mas meu nome é Janeiro e essa era mais uma forma para expandir meu lamento.
Pensei que quando me tornasse uma pessoa importante e madura, todos me chamariam de senhor Paiva ou doutor Pires ou Lorde Alvarez, nas fantasias mais felizes. Tentei forçar essa, mas nunca pegou, muito porque não sou médico nem advogado para ser chamado de doutor, ainda não tenho idade para receber o tratamento irremediável de senhor, menos ainda me tornei um nobre medieval para ser Lorde de Qualquer Gleba. Ao conhecerem meu nome de batismo, mesmo sem jamais ter sido batizado em qualquer religião, ninguém resistia a insistir sobre ele, muitas vezes me atribuindo alcunha de Jano pensando que estavam sendo originais.
Esse pequeníssimo engano era um dos poucos que me faziam feliz, pois poderia retrucar que todos já me chamam assim, deixando a pessoa levemente desconcertada por ter sido privada de sua pretensa agudeza de espírito. Logo era esquecida, essa minha módica vitória. Eu a apreciava ainda assim.

Daí, aceitei o Jano definitivamente como aceitei muitas outras coisas e acontecimentos em minha vida: simplesmente porque era “menos pior” que a alternativa. É um reiterado laissez faire, laissez aller, laissez passer em relação ao resto do mundo –– os outros seis bilhões de vivos.